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| O Rio da Minha Vida - Rio Juruá |
O rio da minha vida não é um só. São dois, três… talvez
muitos, espalhados pelas curvas da memória, pelos caminhos da infância e pelos
sonhos que ainda navegam dentro de mim.
O primeiro deles é o Rio Tejo, na pequena
localidade de Veneza, onde comecei minha travessia neste mundo. De lá
não guardo lembranças próprias — apenas as histórias que meus pais contam, como
quem resgata pequenas canoas da memória e as coloca novamente sobre as águas do
tempo.
Depois veio o Rio Juruá, largo e antigo,
serpenteando pela floresta como um grande guardião da Amazônia. Foi ele quem
banhou as comunidades e localidades onde vivi minha infância — Acuriá, Belfort,
Canta Galo.
O Juruá não era apenas um rio. Era caminho. Era
paisagem. Era companhia. Suas águas acompanharam os passos de um menino que
crescia olhando o horizonte pela beira do barranco, imaginando o que existia
além da próxima curva do rio.
Mas eu também sempre fui viajante. Viajante
do tempo, das minhas imaginações e dos sonhos que atravessam a alma como barcos
silenciosos na madrugada.
Sou viajante do Rio Amônia, que nasce nas
montanhas do Peru e desce trazendo histórias de povos indígenas, de ribeirinhos
e das vidas simples e fortes da Reserva Extrativista do Alto Juruá.
Sou do Acuriá, lugar de tantas histórias
contadas pelas aventuras de caça do meu pai, histórias que enchiam a noite e
faziam a floresta parecer ainda maior aos olhos de um menino.
Sou do São João, onde vivem as raízes
profundas da minha mãe — raízes firmadas na terra, na família e na memória.
Sou também do Rio Bajé, onde viveram alguns
dos primeiros povos indígenas que habitaram as terras que hoje chamamos de Marechal
Thaumaturgo.
Sou do Rio Arara e também do Rio Breu,
rio de fronteira, rio de encontro entre Brasil e Peru, onde começaram muitas
das histórias que deram origem ao nosso município.
E sou também das águas do Rio Caipora, das
águas e das terras que conduzem ao encontro com o sagrado, no caminho que leva
ao Santuário de Nova Olinda, onde a fé parece correr junto com o
murmúrio das águas.
Se alguém perguntasse onde fica o mapa da minha
vida, eu diria sem hesitar: Ele foi desenhado pelos rios. Os rios da minha vida
sempre tiveram águas doces e salgadas.
Doces como os sonhos que sonhei. Doces como a
vontade de conhecer o desconhecido, de viajar, registrar, escrever, contar
histórias. Doces como o orgulho de pertencer a esse pedaço tão especial do
Brasil amazônico.
Mas também salgadas. Salgadas como as lágrimas de
tantas noites sem dormir. Noites em que o silêncio parecia maior que o mundo. Salgadas
pelas críticas, pelo preconceito, pela rejeição. Salgadas pelas batalhas da
vida — porque quase nada foi dado. Quase tudo foi conquistado.
Quantas vezes caí em águas profundas e quase me
afoguei. Quantas vezes me banhei em lágrimas, desejando permanecer ali, no
silêncio das minhas próprias angústias e ansiedades. Houve momentos em que o
cansaço parecia mais forte que a vontade de continuar nadando.
Mas também houve renascimentos. Assim como o
banho nas águas de Nova Olinda, que purifica, refresca e devolve à alma
um sopro novo de esperança, muitas vezes a vida me chamou de volta à
superfície. E eu voltei. Voltei para recomeçar.
Voltei para seguir. Voltei para continuar mesmo
cansado. Porque as águas dos rios da minha vida carregam muitas coisas. Carregam
luta. Carregam garra. Carregam força. Carregam coragem.
Mas acima de tudo, carregam fé.
Porque no fundo de cada rio que atravessa minha
história, existe uma presença silenciosa que guia a canoa da vida. Uma presença
que sustenta quando as águas ficam profundas demais. Nos rios da minha vida
correm também as águas invisíveis da esperança.
E nelas sempre esteve, silenciosamente presente: Deus. E enquanto esses rios continuarem correndo dentro de mim, minha história continuará seguindo seu curso — como uma pequena embarcação amazônica, simples e persistente, descendo as curvas infinitas da vida.
✍️ Por: Cleudon
França.
📸 Fotos: Arquivo
pessoal Cleudon França.

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